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- Doenças Infectocontagiosas | Pasteur Brasil
Doenças Infectocontagiosas Ao longo da História humana, muitos foram os higienistas que alertaram para o contágio de doenças e a influência da falta de medidas de higiene: médicos e médicas da Escola Médica de Salerno na Itália, Michel de Nostredame (Nostradamus), Ignaz Semmelweis, dentre muitas outras personalidades de épocas e locais distintos. Por exemplo, o físico Robert Boyle já afirmava no século XVII: “aquele que conseguir sondar, até o fundo, a natureza dos fermentos e das fermentações estará mais apto, do que qualquer outro, para dar uma justa explicação dos fenômenos mórbidos”. Todos os tratados dos séculos XVIII e XIX assinalam as similitudes entre fermentação e doença: “o que se passa na fermentação do vinho pode servir muito bem para explicar certas doenças, principalmente a varíola” disse Nicolas Lémery em 1713 (Debré, 1995, p. 303). Portanto, o debate sobre a etiologia das doenças infecciosas não começou com Pasteur, mas ganhou uma intensidade particular quando ele quis impor a ideia da origem microbiana dessas doenças. Para Pasteur, os microrganismos, responsáveis pelos fenômenos de fermentação e putrefação, também deveriam ser a causa das doenças contagiosas. “Quando você vê cerveja e vinho”, escreveu ele, “sofrem profundas alterações porque esses líquidos deram refúgio a organismos microscópicos que entraram invisível e acidentalmente em seu interior, onde então enxamearam, como não ficar obcecados com o pensamento que fatos da mesma ordem podem e às vezes devem ocorrer em humanos e animais? No entanto, o papel de Pasteur em validar essa hipótese deve, não sem razão, ser questionado (Perrot; Schwartz, 2017, p. 173). Na época do debate sobre a geração espontânea, o médico Gilbert Déclat fez uma conferência sobre o papel dos micróbios e louvou os trabalhos de Pasteur sobre a fermentação e a compreensão das doenças. No fim da preleção, Pasteur, que não conhecia Déclat aproxima-se para agradecer e para fazer suas críticas: “Os argumentos que o senhor usou para sustentar minhas teorias são bem engenhosos mas faltam com o rigor. A analogia não é uma prova”. Pasteur está convencido que não adianta alimentar controvérsias por hipóteses, mesmo hábeis. Só o que conta é a experimentação (Debré, 1995, p. 304). Pasteur encontrava-se ocupado com outros estudos, pressionado pelas doenças do bicho-da-seda e dos vinhos, que foram retardados pela guerra de 1870 e pela hemiplegia. Além disso, Pasteur não é médico. Desde 1860, a difusão dos conceitos evolucionistas de Charles Darwin dá ênfase à hereditariedade, e a doença passa a ser interpretada habitualmente como uma predisposição mórbida. Havia o dogma “a doença está em nós, é nossa e para nós”. Pasteur não desaprova inteiramente, mas acrescenta que não crê que isso seja verdadeiro para todas as doenças (Debré, 1995, p. 305). Deste modo, no século XIX, diversas teorias médicas coexistiam: a favor e contra o papel dos micróbios nas doenças. Na Prússia, Rudolf Virchow rejeita a teoria microbiana, dizendo que “a doença não é uma aberração enxertada num organismo sadio. Ela é uma simples desordem da saúde”. Pasteur combaterá as ideias de Virchow na patologia do mesmo modo que recusou as ideias de Justus von Liebig sobre a fermentação (Debré, 1995, p. 345). Na França, havia cirurgiões que não estavam convencidos do papel dos micróbios nas doenças, dentre eles Édouard Chassaignac, Jules Émile Péan e Armand Després (Debré, 1995, p. 305). Havia também os partidários do contágio, os médicos contagionistas, dentre eles Pierre Bretonneau, René Laennec, Trousseau, Casimir Davaine, Jean-Antoine Villemin, por exemplo (Debré, 1995, p. 305-306). Diversos cirurgiões higienistas como Alphonse Guérin, Just Lucas-Championnière, Jules Helot, Stéphane Tarnier, Ulysse Trélat e Félix Terrier encorajam Pasteur a interpretar e exaltar os méritos da assepsia e da antissepsia e a pregar o combate contra o contágio por meio da higiene (Debré, 1995, p. 307). Mas, é ao cirurgião inglês Joseph Lister, que se atribui oficialmente a primeira aplicação das descobertas de Pasteur na Medicina. Lister tem acesso aos relatórios de Pasteur para a Academia de Ciências de Paris por meio de Thomas Anderson e se interessa pelos problemas de putrefação. Ele compreende a ligação que pode existir entre a decomposição da matéria orgânica e a infecção pós-operatória. Ajudado pela esposa, Lister reproduz no laboratório doméstico as experiências de Pasteur e confirma a que a putrefação e a fermentação só aparecem se são introduzidos germes externos. Entende, assim como Pasteur, que o ar ambiente é uma das principais causas da propagação dos micróbios. Também inventa um modo de destruir as bactérias no tecido lesado, descobrindo então a antissepsia (Debré, 1995, p. 317-318). Lister se corresponde com Pasteur agradecendo pelas suas pesquisas, e refere-se ao amor comum dos dois à ciência. Pasteur se surpreende com o reconhecimento de um cirurgião estrangeiro e retorna a carta de Lister dizendo-se admirado com a precisão de suas manipulações e a compreensão do método experimental, e também toma a liberdade de apresentar algumas observações críticas ao novo amigo para aumentar o rigor do método de cultura utilizado (Debré, 1995, p. 322). Em 1867, Lister anuncia no The Lancet a invenção da antissepsia e suas indicações para o tratamento. Nesta e em outras apresentações, Lister expõe primeiro as teorias de Pasteur e depois descreve seus próprios resultados (Debré, 1995, p. 319). Por outro lado, Armand Després, cirurgião, nega a assepsia e antissepsia, defendendo os curativos contaminados. Demonstra franca antipatia pelos métodos de Lister e pelos princípios de Pasteur (Debré, 1995, p. 331-332). Em 1877, os trabalhos de Pasteur sobre a origem das doenças infecciosas são direcionados para a medicina veterinária. Ele se dedica ao carbúnculo, a pedido do amigo e Ministro da Agricultura Jean-Baptiste Dumas. Pasteur havia vencido o flagelo do bicho-da-seda e é indicado a encontrar o remédio desta afecção que assola os rebanhos (Debré, 1995, p. 347). Casimir Davaine foi um dos primeiros a notar, no sangue carbunculoso, microorganismos na forma de bastonetes. Junto com o seu colega também médico, Pierre-François-Olive Rayer, fez um extenso estudo sobre o carbúnculo em animais de chifre em 1850. Davaine fez a seguinte pergunta: trata-se de um agente contagioso ou só de uma consequência inofensiva da doença? Na época, ele não avaliou o alcance de sua observação. Em 1863, já conhecedor dos trabalhos de Pasteur, retoma a sua observação e faz uma nova comunicação à Academia de Ciências sobre o papel mortal das bactérias do carbúnculo. Em sua nota, homenageia formalmente os trabalhos de Pasteur. Na Alemanha, aparecem as experiências de Robert Koch (Debré, 1995, p. 350, 388, 391), que tem 33 anos quando se interessa pelo problema do carbúnculo. Ele foi aluno de Jacob Henle, que o instruiu sobre a teoria microbiana e os seus obstáculos teóricos e experimentais (Debré, 1995, p. 344, 350). Num laboratório primitivo que organiza em casa, Koch, sozinho, se dedica ao problema, procurando repetir e ir além das observações de Davaine. Pasteur toma conhecimento da publicação de Koch sobre o carbúnculo e está de acordo com sua tese de que há esporos nos campos, mas acha suas provas insuficientes e propõe uma demonstração mais rigorosa. Há relatos de que o artigo de Koch foi um empurrão para Pasteur estudar as enfermidades nos animais e posteriormente em humanos. Durante as pesquisas, Pasteur, com a ajuda de um veterinário, que o acompanha, Daniel Boutet, consegue uma amostra de sangue de um animal morto recentemente de carbúnculo e constata que a inoculação de uma cultura, ainda que diluída deste sangue, mata. Deste modo, conclui que a doença com certeza é transmitida pela bactéria (Debré, 1995, p. 351). Pasteur vai além e descobre que há outra doença associada (assim como no bicho-da-seda) e batiza o microorganismo de vibrião séptico (Debré, 1995, p. 353). A partir do momento em que Pasteur se interessa pela doença do carbúnculo do carneiro, sua conversão para a Medicina está feita. Uma nova geração de estudos e experiências se iniciam (Debré, 1995, p. 339). Nas pesquisas em campo, junto ao rebanho, colaboram Charles Chamberland (estagiário titular do momento), Auguste Vinsot (veterinário) e Émile Roux (médico de 25 anos à época, e um dos mais assíduos ouvintes de Pasteur na Academia de Medicina). Pasteur encontra a explicação para a propagação do carbúnculo e orienta os criadores (Debré, 1995, p. 362-363). Porém, são as grandes epidemias da época, a peste, a cólera e a febre amarela que interessam mais a Pasteur (Debré, 1995, p. 386). Em 1865 Pasteur precisou pela primeira vez enfrentar um problema da medicina humana: uma epidemia de cólera que veio do Egito atinge a França (Debré, 1995, p. 345-346). Pasteur propõe ao Comitê Consultor de Higiene enviar uma missão francesa ao Cairo, no Egito. Três voluntários se declaram prontos para partir: Émile Roux, Edmond Nocard e Isidore Straus. Louis Thuillier inicialmente hesita e depois decide que fará parte da viagem. Infelizmente ele morre de um ataque fulminante de cólera, em Alexandria, aos 26 anos (Debré, 1995, p. 388). Robert Koch, que na mesma época dirigia uma equipe alemã, vai até a cabeceira de Thuillier e lhe presta as homenagens fúnebres. Pasteur fica devastado, pois um dos seus assistentes é vítima do dever. Sente-se torturado pelas lembranças das hesitações de Thuillier em embarcar nesta missão (Debré, 1995, p. 388). Referências: DEBRÉ, Patrice. Pasteur. São Paulo, SP: Scritta, 1995. PERROT, Annick; SCHWARTZ, Maxime. Louis Pasteur le Visionnaire. Paris, França: Éditions de la Martinière, 2017. https://homoprojector.iipc.org/index.php/homoprojector/article/view/116 https://www.terredelouispasteur.fr/2020/03/20/pasteur-et-koch/ Escola Médica de Salerno, na Itália. Michel de Nostredame (Nostradamus). Ignaz Semmelweis em 1860. Robert Koch Louis Pasteur confirma as conclusões de Casimir Davaine e Robert Koch: é efetivamente uma bactéria que origina o carbúnculo, uma enfermindade que semeia estragos nos rebanhos de ovinos e bovinos. Jean-Baptiste Dumas. A invenção da antissepsia e da assepssia. "Se é bem espantoso pensar que a vida possa estar à merce da multiplicação do infinitamente pequeno, nos fica o consolo de esperar que a ciência não será sempre impotente frente a tais inimigos" (Louis Pasteur, 1878). Continue lendo a biografia
- Jubileu: 70 Anos | Pasteur Brasil
Jubileu: 70 Anos No início de 1892 a saúde de Pasteur deteriora bruscamente, e ele não sai do quarto. Em maio deste ano é formado na Dinamarca um comitê que anuncia a intenção de festejar os 70 anos do cientista e abre uma subscrição nacional para conseguir fundos para enviar uma medalha comemorativa. O movimento se estende à Noruega, Suécia. Na França, a Academia de Ciências forma um comitê e Joseph Grancher é nomeado secretário. O reitor da Academia de Paris abre as portas do grande anfiteatro da Sorbonne. 4.000 convites são distribuídos. A cerimônia acontece em 27/12, dia do aniversário de Pasteur. Da França, comparecem os Membros do Instituto Pasteur (pasteurianos), professores de faculdades, delegados das academias, representantes de sociedades científicas (francesas e estrangeiras), delegações da École Normale Supérieure, da École Polytechnique, da École Central, da École Vétérinaire, bem como estudantes de Medicina e Farmácia. Pasteur entra pelo braço do Presidente da República, Sadi Carnot. Os dois usam a grã-cruz da Legião de Honra. Discursos e homenagens são feitos de todos os departamentos da França, de todos os países da Europa e vários países do mundo. Falam em nome de presidentes, prefeitos, acadêmicos. Estão presentes representantes da Suécia, Turquia, Alemanha, Itália, Áustria-Hungria, Bélgica, Inglaterra, entre outros. Pasteur se levanta para abraçar Lister. Émille Gallé fabrica uma taça única para “cristalizar o pensamento” de Pasteur. Este vitralista encontrou um meio de incluir micróbios na transparência do cristal. Jean-Baptiste, filho de Pasteur, é quem lê o discurso (assim como na Inauguração do Instituto Pasteur). As palavras são dirigidas aos jovens para não se deixarem dominar pelo “ceticismo difamante e estéril” e para viverem na “paz serena dos laboratórios e bibliotecas”. Prossegue aconselhando “Digam a vocês mesmos: o que fiz pela minha instrução? Depois, à medida que forem avançando: o que fiz pelo meu país? Até o momento em que, talvez, tenham essa imensa felicidade de pensar que contribuíram alguma coisa para o progresso e o bem da humanidade”. Os últimos a falar são os habitantes de Dole (cidade natal de Pasteur). Durante esta homenagem, Pasteur mantém a mão no rosto para disfarçar a emoção. Referências: DEBRÉ, Patrice. Pasteur. São Paulo, SP: Scritta, 1995. Jubileu de Pasteur na Sorbonne. Jornal da época do Jubileu. O filho de Pasteur, Jean-Baptiste, é quem lê o discurso de Louis Pasteur, assim como o fez na inauguração do Instituto Pasteur, devido às sequelas dos AVCs do pai. Sadi Carnot, presidente da República da França, acompanha Pasteur devido às sequelas dos AVCs. Joseph Lister, cirurgião inglês, saúda Pasteur. Gallé fabrica uma taça única para “cristalizar o pensamento” de Pasteur. Este vitralista encontrou um meio de incluir micróbios na transparência do cristal. Continue lendo a biografia
- Leituras Iniciais | Pasteur Brasil
Voltar para os Grupos Leituras Iniciais François-Xavier-Joseph Droz 1773-1850 Filósofo e historiador francês. Membro da Academia Francesa (eleito em 1824). Professor na Escola Central de Besançon (1797). Droz era escritor moralista do Franco-Condado, mais especificamente da cidade de Besançon, na França. Quando jovem, Pasteur leu a obra “Ensaio sobre a Arte de ser Feliz”. A vaidade, segundo ele, era o sentimento mais temível, o pai de todos os pecados. “Nunca li nada mais sábio, mais moral e mais virtuoso. Experimenta-se, lendo, um encanto irresistível que penetra na alma e a inflama com os mais sublimes e generosos sentimentos” (Debré, 1995, p. 26; Viñas, 1991, p. 40; Garozzo, 1974, p. 48). Ref. https://data.bnf.fr/en/12510964/joseph_droz/ Silvio Pellico 1789-1854 Pellico foi escritor e dramaturgo italiano, que também viveu em Lyon, cidade na França. Pasteur leu, na juventude, a obra “Minhas prisões”, a qual retrata as experiências do autor como prisioneiro, momento em que se converteu ao catolicismo, a fim de demonstrar como a religião é conforto em momentos de desgraça. Pasteur recomenda esta leitura também às suas irmãs. “Gostaria que elas lessem essa obra interessante em que se respira, a cada página, um perfume religioso que eleva e enobrece a alma” (Debré, 1995, p. 26; Viñas, 1991, p. 40; Garozzo, 1974, p. 48 ). Ref. https://data.bnf.fr/en/12059660/silvio_pellico/ Xavier Boniface de Saintine 1798-1864 Romancista, dramaturgo e poeta francês. Suas peças de teatro são assinadas "Xavier". Foi também fotógrafo amador. Sua o bra "Picciola" foi recomendada pela Academia Francesa, sendo considerada um clássico da literatura. Neste livro, o autor aborda um prisioneiro (por conspirar contra Napoleão) que descobre uma planta crescendo entre duas pedras no pavimento de sua cela. A planta é a imagem da força da natureza e da persistência, e se tornará símbolo de vida e amor. Ao lê-la o jovem Pasteur afirma: “Livro muito bonito, muito útil e muito interessante” (Debré, 1995, p. 40). Ref. https://data.bnf.fr/fr/12139654/x_-b__saintine/ Alphonse Marie Louis de Prat de Lamartine 1790-1869 Literato, orador e político francês. Membro da Académie Française (eleito em 1829). Suas obras influenciaram o Romantismo na França. No livro “Meditações”, lida por Pasteur, o autor escreveu inspirado num breve amor cuja a amada morreu prematuramente (Debré, 1995, p. 40). Ref. https://data.bnf.fr/en/11910800/alphonse_de_lamartine/ Próximo Grupo
- Personalidades | Pasteur Brasil
Acesse os Grupos Legenda do Grupocarmograma Conheça a notação utilizada na pesquisa.
- Pasteurianos | Pasteur Brasil
Pasteurianos Com o aperfeiçoamento de suas pesquisas, Pasteur precisa se cercar de estagiários, com tarefas de grandes responsabilidades: alimentar os micróbios (culturas em desenvolvimento) e controlar o desenrolar das experiências. Os estagiários são quase todos saídos da École Normale Supérieure e voltam a lecionar depois do estágio no laboratório. O amigo da juventude de Pasteur, o físico Pierre-Augustin Bertin, é quem os seleciona para ele, que escolhe entre seus próprios alunos. Jules Raulin pertencia à primeira geração de estagiários, na época da química fermentativa. Passou a fazer parte da história das ciências como inventor de um novo caldo de cultura. Era um dos alunos preferidos de Pasteur e terminou sua carreira como professor de química industrial em Lyon. Raulin e Eugène Maillot ajudaram Pasteur no laboratório da Rua Ulm, inclusive logo após o seu primeiro AVC aos 45 anos. Eles iam até a casa de Pasteur para receber as ordens do dia e dar a continuidade aos experimentos (Debré, 1995, p. 521; Garozzo, 1974, p. 116). Jules Joubert colabora até a época do início das pesquisas em biologia médica. Como é físico, interrompe a colaboração com Pasteur para se voltar aos campos magnéticos. Charles Chamberland o substitui. Tem 27 anos quando entra para o laboratório. Suas origens no Jura despertam a simpatia de Pasteur. Alegre e bon vivant, possui uma mente engenhosa e aprecia a inovação técnica. Devemos a ele a invenção da autoclave. Uma curiosidade: ao se queixar de numerosos furúnculos no pescoço, nuca e coxa, Pasteur o examina e propõe uma experiência: colhe um pouco de pus de sua nuca e o cultiva. Deste modo, descobre o estafilococo, o mais frequente dos germes patogênicos (Debré, 1995, p. 384-385). Chamberland, no Instituto Pasteur é quem orienta o serviço das vacinas (Debré, 1995, p. 521). Louis Thuillier é designado como novo estagiário, escolhido por Bertin, e se dedica ao estudo da erisipela suína. Pasteur cria grande amizade pelo jovem e fica muito abalado com a sua morte precoce no Egito, com apenas 26 anos, onde havia ido estudar a cólera. Dentre todos os colaboradores no laboratório da Rua Ulm em Paris, é preciso destacar três que tiveram um papel especial ao lado de Pasteur: Duclaux, Roux e Loir. Émile Duclaux chega em 1862, em plena época da discussão sobre as gerações espontâneas. Mesmo atuando como professor de química, participa ativamente dos trabalhos de Pasteur, tanto na época do bicho-da-seda como nos estudos do vinho. Ele se torna o diretor técnico do laboratório. Muito ordeiro, controla para que tudo fique no lugar. É a ele que procuram quando é necessário tomar alguma decisão e não querem incomodar Pasteur. Diante das respostas de Pasteur a todos os seus contestadores, Duclaux, pela proximidade afetiva, escreve a Pasteur “enxergo perfeitamente o que o senhor perde nessas lutas: seu descanso, seu tempo, sua saúde. Procuro, em vão, o que o senhor pode ganhar com isso” (Debré, 1995, p. 364). No Instituto Pasteur, Duclaux é o responsável pela microbiologia geral (Debré, 1995, p. 521). Após a morte de Pasteur em 1895, Duclaux tornou-se diretor do Instituto, com Roux e Chamberland servindo como seus sub-diretores. Várias cartas de Pasteur atestam a autoridade que ele confere a Duclaux no seio desta equipe encarregada dos preparativos essenciais e emergências sucessivas: primeira redação dos estatutos, constituição da assinatura destinada a financiar o projeto, postagem diária de resultados, organização administrativa, primeiras aquisições de terrenos, construção de edifícios, acolhimento de jovens cientistas. Duclaux é quem apresenta Émile Roux a Pasteur. Na época, ele era um jovem estudante de Medicina e um dos mais assíduos ouvintes dos debates de Pasteur na Academia de Medicina. Sua chegada começa com a aplicação de uma injeção na ausência de Pasteur, o que contrariou Pasteur, mas a continuação da experiência mostrou que o jovem sabia o que estava fazendo, então Pasteur o escolheu como estagiário (Debré, 1995, p. 360, 379). Roux foi descrito como uma pessoa solitária, sem ambição aparente. Ele se tornará o mais próximo colaborador de Pasteur (Debré, 1995, p. 360, 379). Roux se torna, nas palavras de Debré (1995, p. 531-532) o campeão das terapias antiinfecciosas, com imensas contribuições na cura da difteria, por exemplo. É considerado também o discípulo mais contraditório de Pasteur. Em certas ocasiões ele não hesitava em se opor ao mestre, apesar de respeitar a hierarquia e os 30 anos de diferença de idade que os separavam. Quando Pasteur chegava a algum resultado, construía uma teoria e a expunha, Roux nunca deixava de procurar uma falha, o que se tornou irritante para Pasteur, que reclamava: “como esse Roux é desagradável. Se eu o escutasse, ele poria fim em qualquer coisa que eu quisesse realizar” (Debré, 1995, p. 379). O caráter de Roux é descrito como muito particular. Ele compreendia que a calma e a concentração eram as palavras mestras do laboratório, e embora fizesse críticas constantes, isso não o impedia de conservar o silêncio e de servir de filtro entre Pasteur e o mundo exterior. Na hora certa, por exemplo, se desembaraçava dos rivais de Pasteur, mantendo-os à distância. Durante 8 anos, Roux será o único médico admitido no laboratório da Rua Ulm. Ele se torna um inoculador de profissão, sabendo, por exemplo, injetar precisamente os germes (Debré, 1995, p. 382). No Instituto Pasteur, Roux é o responsável pela microbiologia médica técnica (Debré, 1995, p. 521). Roux dedicou 46 anos de sua vida ao Instituto Pasteur. Foi ele quem recomendou Oswaldo Cruz às autoridades brasileiras para a criação de um laboratório (Lima; Marchand, 2005, p. 33). Roux foi um dos mais próximos colaboradores de Louis Pasteur, cofundador do Instituto Pasteur e descobridor do soro anti-difteria, a primeira terapia efetiva contra esta enfermidade. A Rua do Instituto Pasteur em Paris, se tornou Rua Doutor Roux. Adrien Loir, sobrinho de Pasteur (filho da irmã caçula de Marie, Amélie), começa atuando como um estagiário onipresente, com o qual Pasteur pode contar, especialmente para completar seus movimentos devido ao braço paralisado. Pasteur dá suas diretrizes e traça planos dos ensinamentos ao seu sobrinho: aprender a soprar o vidro, assimilar as bases da cristalografia, melhorar a letra em curso de caligrafia. Uma curiosa relação se estabelece entre tio e sobrinho. Loir escreve, em tom de reclamação, que Pasteur o usava para realizar o que sua mente concebia. Também escolheu a formação que ele deveria fazer, no caso, Medicina (Debré, 1995, p. 381). A pedido de Pasteur, Loir vai à Rússia (Debré, 1995, p. 497), à Austrália (ficará por 5 anos) e lá fundará o primeiro Instituto Pasteur além-mar (Debré, 1995, p. 527, 528). Também funda o Instituto Pasteur de Túnis (Tunísia - norte da África) quando volta da Austrália (Debré, 1995, p. 541). Loir recorda que Pasteur era bastante influenciado pela visão de Duclaux, e que se tornava calmo e se punha a trabalhar, diferentemente de Roux (Debré, 1995, 379). Pasteur se cerca de personalidades científicas notáveis, construindo uma rede de inteligências (Debré, 1995, p. 407). Além de dar seguimento às suas pesquisas, são também responsáveis pelo ensino e formação dos alunos (Debré, 1995, p. 522). Quando Pasteur ouve falar das descobertas do russo Élie Metchnikoff (ou Metchnikov) sobre a fagocitose, manda publicar seus trabalhos nos Anais do Instituto Pasteur e lhe outorga um duplo posto: diretor do laboratório de microbiologia morfológica e chefe de serviço no Instituto Pasteur (Debré, 1995, p. 521, 533-534). Metchnikoff trabalhou na mesma estação bacteriológica na Rússia que Nicolas Gamaleia (Nikolay Gamaleya), que foi diretor do Instituto da Raiva na cidade de Odessa. No Instituto Pasteur, Gamaleia é o responsável pela pesquisa em microbiologia médica (Debré, 1995, p. 521). Joseph Grancher dirige, no Instituto Pasteur, o departamento da raiva com André Chantemesse (Debré, 1995, p. 521). Albert Calmette entra para o laboratório de Roux em 1890. Ele era médico da marinha. Apaixonado pela microbiologia levava consigo um microscópio em todas as campanhas e andava atrás de micróbios em várias partes. Mostra seu trabalho a Roux, que logo fica impressionado. Trabalha por um tempo em Paris. Pasteur, para aproveitar a experiência na Indochina, o envia para fundar em Saigon um laboratório de preparação de vacinas antivariólicas e anti-rábicas, que será o Instituto Pasteur de Saigon (Debré, 1995, p. 537). Pouco antes de morrer, Pasteur confia a Calmette a missão de criar e dirigir um Instituto Pasteur em Lille. É neste momento que Calmette começa com Camille Guérin suas pesquisas sobre o bacilo da tuberculose que terá como resultado a vacina BCG. No curso de microbiologia que fez no Instituto Pasteur, Calmette encontrou um jovem médico, que tinha sua idade: Alexandre Yersin, que foi à Paris preparar sua tese de Medicina sobre tuberculose. Ao mesmo tempo, ele trabalhava na Santa Casa de Misericórdia na unidade de Charles Richet, onde fazia a necropsia de pacientes que morriam de raiva. No local, durante uma necropsia, encontra Roux e eles se entendem profundamente. Em 1886, Yersin passa todas as tardes no laboratório na Rua Ulm onde assiste Roux nas preparações e se torna o estagiário pessoal de Roux. Pasteur o encarrega de fazer os curativos nos doentes. Desde a criação do Instituto Pasteur, ele vai participar, aos 25 anos, dos primeiros trabalhos sobre a toxina diftérica (Debré, 1995, p. 538, 522, 531). Yersin, de caráter ansioso, não se habitua à lenta rotina do Instituto Pasteur e quer correr o mundo. Engaja-se como médico a bordo de um navio-correio e desembarca no Vietnã. Em Saigon, encontra-se com Albert Calmette que o encoraja a montar expedições, que ele faz várias. Em 1894 uma grave epidemia de peste aparece na China e o governo da Indochina lembra que Yersin havia trabalhado no Instituto Pasteur, e o enviam a uma missão. Ele vai até Hong-Kong prestar socorro e monta lá um pequeno laboratório e lá descobre o bacilo da peste e consegue montar o soro contra a peste. Além disso, consegue provar que os ratos estão na origem da epidemia (Debré, 1995, p. 538-539). No fim da vida, na última visita que Pasteur faz ao laboratório, pede para examinar os bacilos da peste que Yersin havia isolado. Seria sua última observação ao microscópio (Debré, 1995, p. 546-547). Charles Nicolle teve pouco tempo de conhecer Pasteur antes de sua morte. Suas contribuições na microbiologia renderam um prêmio nobel em Medicina. Ele trabalha como estagiário ao lado de Élie Metchnikoff e também ajuda Roux. O irmão mais velho de Charles, Maurice, foi enviado por Roux para fundar o Instituto Pasteur em Constantinopla. André Chantemesse foi enviado por Pasteur para estudar as causas das epidemias de cólera, sugeriu fundar um laboratório de microbiologia na Turquia. Em 1887 foi criada a Instituição de Tratamento da Raiva, a primeira do Oriente (Debré, 1995, p. 540). Nicolle é solicitado a dirigir o Instituto Pasteur de Túnis, na Tunísia, criado por Adrien Loir em sua volta da Austrália. Em Túnis estabelece que a leishmaniose é transmitida pelo piolho, além de identificar também este piolho como o vetor do tifo. Ganha um Prêmio Nobel (Debré, 1995, p. 541). Jules Bordet é o último dos grandes pasteurianos desta geração. Entra no Instituto Pasteur em 1894 e trabalha com Metchnik off. Descobre os anticorpos, os antígenos, e inventa os princípios do sorodiagnóstico das afecções microbianas. Em 1901, quando regressa ao seu país, a Bélgica, pede e obtém de Marie Pasteur, depositária do Instituto Pasteur, o direito de batizar o nome de seu laboratório de Instituto Pasteur de Brabante. Em Bruxelas descobre o bacilo da coqueluche e estuda a coagulação do sangue. Em 1919, ao ganhar o Prêmio Nobel de Medicina, homenageia Pasteur. Os próprios colaboradores de Pasteur se autodenominavam “pasteurianos” (Masi, 1999, p. 112). Referências: DEBRÉ, Patrice. Pasteur. São Paulo, SP: Scritta, 1995. GAROZZO, Filippo. Louis Pasteur. Rio de Janeiro, RJ: Três, 1974. MASI, Domenico de (org.). A Emoção e a Regra: os grupos criativos na Europa de 1850 a 1950. Rio de Janeiro, RJ: José Olympio, 1999. Pasteur e parte de seus colaboradores em 1894. Laboratório no Instituto Pasteur em Paris. Émile Duclaux. Charles Chamberland. Adrien Loir. Albert Calmette Élie Metchnikoff Alexandre Yersin. Louis Thuillier. Continue lendo a biografia
- Descobertas | Pasteur Brasil
Principais Descobertas O químico lançou as bases para várias disciplinas: Biologia Molecular, Epidemiologia Infecciosa, Imunologia, Vacinologia. Primeiras descobertas Cristalografia Os trabalhos nesta área abriram um novo campo na química, denominado Estereoquímica, trazendo o caráter operativo das representações tridimensionais das moléculas. Início da microbiologia científica Fermentação Desvendou-se o mistério da fermentação: o papel dos microorganismos. As repercussões vão desde o fim da era da geração espontânea até ao papel dos organismos invisíveis na etiologia de uma série de doenças. Em construção Referências: DEBRÉ, Patrice. Pasteur. São Paulo, SP: Scritta, 1995. PASTEUR VALLERY-RADOT, Louis. Images de la Vie et de l´ Œ uvre de Pasteur. Paris, França: Flammarion, 1956. PERROT, Annick; SCHWARTZ, Maxime. Louis Pasteur le Visionnaire. Paris, França: Éditions de la Martinière, 2017. Extensão do método experimental Teoria dos Germes A elucidação detalhada das doenças do bicho-da-seda permitiram a comprovação científica de contágios de microorganismos nas áreas agrícola, animal e humana. Houve o estabelecimento do método científico experimental. Estabelecimento da vacinação Imunologia Abertura ao vasto campo de tratamentos de doenças infectocontagiosas e o início da vacinação em massa.

